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Andre Vieira

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3 de Abril de 2011, 21:00 , por Desconhecido - | No one following this article yet.

Após golpe, Paraguai autoriza controversos projetos com multinacionais

26 de Julho de 2012, 21:00, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Fonte: Opera Mundi

A abertura a empresas multinacionais que estão sob suspeita por questões ambientais pauta o primeiro mês de governo de Federico Franco no Paraguai, isolado por parte da comunidade internacional. Entre as medidas questionadas está a habilitação do plantio de algodão transgênico e a construção de uma fábrica de alumínio.

Efe

Para analistas, Franco encontrou a casa em ordem em termos econômicos e agora foram destravados in[umeros projetos

"É preocupante que um governo não eleito pelo voto popular tenha se aberto a esses investimentos (de capitais estrangeiros) sem nenhum controle", disse à IPS o economista Luis Rojas, da organização não governamental Base Pesquisas Sociais. Como exemplo, Rojas citou a permissão dada para utilizar sementes de algodão geneticamente modificado da variedade Bollgard, da multinacional Monsanto, deixando sem efeito os estudos preliminares exigidos para a concessão desse tipo de licença.

Franco designou para chefiar o Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave) o empresário de agroquímicos Jaime Ayala, que não demorou em inscrever no Registro Nacional de Cultivos Comerciais (RNCC) a semente Bollgard, rejeitada pela mesma entidade semanas antes porque a empresa não apresentava os requisitos exigidos.

Segundo Rojas, a aprovação é ilegalmente porque ainda não havia o parecer técnico da Secretaria do Meio Ambiente nem do Ministério da Saúde, como exige a lei. A sociedade civil também questiona a possível instalação da multinacional canadense Rio Tinto Alcan (RTA) para construção de uma fábrica de alumínio com investimento de 3,5 bilhões de dólares. "A negociação começou praticamente no dia seguinte à mudança de governo", destacou à IPS o analista José Carlos Rodríguez.

O presidente Fernando Lugo, destituído em um julgamento político sumário no dia 22 de junho e horas depois substituído por Franco, havia formado uma equipe para o estudo do projeto. Porém, Franco autorizou o começo das negociações de imediato, sem esperar os resultados dessa análise. Rodríguez questionou que as novas autoridades não estão fazendo nenhum cálculo custo-benefício no que se refere às implicações econômicas e ambientais da instalação neste país de uma empresa com a potencialidade contaminante como a da produção de alumínio.

O atual governo se defende alegando que a fábrica geraria cerca de quatro mil postos de trabalho de forma direta, mas em dezembro passado o então ministro de Obras Públicas, Cecilio Pérez Bordón, assegurou que seriam necessários apenas 1.250 trabalhadores para levar adiante essa produção. Bordón explicou, em seu informe apresentado em uma audiência pública, que todas as matérias-primas e todos os insumos serão importados, exceto a energia elétrica. Também disse que a RTA utilizaria de forma constante 1.100 megawatts (MW), equivalente a nove mil gigawatts/hora (GWh) por ano, e pretende um contrato de consumo entre 2016 e 2045, e renovável.

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O Paraguai demanda atualmente 11 mil GWh anuais de energia e produz cerca de 56 mil, com potência próxima de 7.500 MW, somando a central de Acaray e os 50% que lhe cabem dos complexos binacionais de Itaipu, compartilhado com Brasil, e Yacyreta, que divide com a Argentina. A instalação da RTA exigiria mais que o dobro da energia que o país consome hoje. Bordón insistiu na época para não se subsidiar o custo da energia, recomendando que a empresa pagasse o custo real do serviço elétrico que era de US$ 59,7 por MW/h em 200 quilowatts.

"Se a energia for vendida à RTA por US$ 38 o MW/h por 30 anos ou mais, o Paraguai perderá entre US$ 195 milhões e US$ 1,008 bilhão anuais, precisando aumentar a tarifa para os demais usuários, incluído o uso doméstico, aumentar os impostos ou reduzir o investimento público", explicou Bordón. Diante deste cenário, as organizações sociais aumentam seu repúdio ao governo de Franco e afirmam que a destituição de Lugo teve como pano de fundo o objetivo de facilitar a entrada das multinacionais. "O governo não é um interlocutor válido porque não lhe interessa conversar com a sociedade civil. Só o faz com o empresariado", denunciou Rojas.

Isolamento

Por sua vez, o ex-deputado do Partido Colorado do Paraguai Bernardino Cano Radil afirmou que sua agremiação não discutiu este caso em profundidade para adotar uma postura. "Em geral" – disse – "o investimento estrangeiro é positivo, mas se deve estudar em detalhe os benefícios para as empresas locais e os trabalhadores". O Partido Colorado foi o principal motor do julgamento político de Lugo pouco depois de começar seu mandato em 2008, quando o ex-bispo católico acabou com 60 anos de governo hegemônico dessa agremiação política.

Efe

Paraguaios comemoram o "Dia da Democracia", em memória pela destituição do presidente eleito Fernando Lugo

No entanto, a falta de reconhecimento de Franco não acaba nas fronteiras, já que continua tendo em seu favor apenas a aprovação de Taiwan e do Vaticano. Tampouco pode prosperar o recurso apresentado ao Tribunal Permanente de Revisão do Mercosul para que seja levantada a suspensão como membro do bloco, decidida por seus três sócios, Brasil, Argentina e Uruguai, na cúpula do final de junho na cidade argentina de Mendoza. Agora, as expectativas estão depositadas apenas na OEA (Organização dos Estados Americanos), cuja missão de observação recomendou a esse órgão não suspender o Paraguai. Mas essa decisão também se faz esperar.

Para os analistas, Franco encontrou a casa em ordem em termos econômicos e agora foram destravados projetos de investimento, doações e outros, não inferiores a US$ 500 milhões, não permitidos enquanto Lugo esteve no governo. A isto acrescenta-se a entrada em vigor, após anos de adiamento, do Imposto de Renda Pessoal (IRP), com uma taxa fixa de 10% para quem recebe mais de 120 salários mínimos por ano, equivalente a cerca de US$ 45 mil. Um projeto para impor este tributo foi travado no parlamento na última etapa do governo de Lugo, com a agravante de que não seria tratado até 2015. Porém, no dia 5 deste mês foi aprovado e Franco o promulgou esta semana.

O IRP será cobrado do exercício profissional ou de prestação de serviços pessoais, desempenho de cargos públicos e renda pela venda ocasional de imóveis, entre outras atividades. Também será cobrado dos sócios ou acionistas que obtiverem dividendos das empresas, mas apenas sobre 50% de sua renda. "Trata-se de apenas 10% do excedente para quem ganha muito dinheiro", um universo muito pequeno neste país, explicou Rodríguez. Em uma primeira etapa, atingirá 12 mil contribuintes, neste país de 6,4 milhões de habitantes.




Guerra no Paraguai, um conflito brasileiro

17 de Julho de 2012, 21:00, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

23 de junho de 2012

http://www.cptms.blogspot.com.br/#!http://cptms.blogspot.com/2012/06/guerra-no-paraguai-um-conflito.html

http://passapalavra.info/?p=60932

Boa parte das terras férteis está nas mãos dos brasiguaios e, no calor do embate pela terra, é geralmente contra eles que a fúria campesina se volta. Por Emilio Gonzalez (*)

I

Há exata uma semana, um fato passou quase despercebido pelos noticiários brasileiros: o massacre de trabalhadores rurais sem terra (campesinos) no Paraguai por policiais da força nacional. O fato ocorreu próximo à fronteira com o Brasil, numa localidade conhecida como Ybyrá Pytá, em Curuguaty, e teve como saldo (oficial) ao menos 17 mortos, entre os quais seis policiais e onze campesinos, além de dezenas de feridos de ambos os lados. É um dos mais graves conflitos da história recente do Paraguai.

O enfrentamento ocorreu quando um destacamento especial de policiais fortemente armados tentou desocupar uma área pertencente a um tradicional político e latifundiário do país, Blas Riquelme. Embora o local do conflito tenha sido descrito como uma reserva florestal (que supostamente se localizava no interior de uma das fazendas de Riquelme), as filmagens realizadas pelos jornalistas que acompanhavam a reintegração de posse, e que estão disponíveis através do youtube, mostram fartos milharais, o que indica se tratar de terra provavelmente grilada, ou área ilegal de atividade agrícola. Propriedades como esta vêm sendo adquiridas de maneira irregular desde os anos 70, quando foram patrocinadas pela ditadura militar de Alfredo Stroessner (1954-89) e, na atualidade, pelo agronegócio.

Por seu turno, o movimento campesino paraguaio agrega trabalhadores sem-terra, desempregados, indígenas e miseráveis segregados pelo latifúndio. Organizados mais sistematicamente a partir dos anos 90, os campesinos passaram a contestar os precários títulos de propriedade concedidos desde os anos 70, ocupando fazendas e áreas consideradas fruto de grilagem, e pressionando pela imediata reforma agrária. A região onde ocorreu o conflito é considerada uma das mais férteis do Paraguai, e boa parte dessas terras está nas mãos de agricultores brasileiros (ou descendentes) residentes no Paraguai – osbrasiguaios. No calor do embate pela terra, é geralmente contra eles que a fúria campesina se volta. Por isso, quando o assunto aparece na mídia brasileira, é geralmente tratado como um caso de xenofobia (ódio aos estrangeiros). De sua parte, os brasiguaios acusam o ex-bispo católico e atual presidente Fernando Lugo de ser conivente, incentivar e até dar cobertura às ações dos “sem terra”. Analisando o fenômeno de maneira apenas superficial, nossa imprensa esconde as verdadeiras raízes históricas deste conflito, e que tem muito mais a ver com a história do Brasil do que conseguimos imaginar. Neste quesito, a dívida brasileira com o Paraguai é imensa, e é por causa dela que muitos destes conflitos acabam por se agravar.

II

O conflito agrário no Paraguai existe há décadas, mas se agravou sobremaneira nos anos 90, sobretudo após a queda do regime ditatorial de Alfredo Stroessner (1954-89) e o avanço do agronegócio sobre a estrutura fundiária paraguaia. No final da década de 1990, os campesinos já se mostravam bastante mobilizados, e no auge de um destes conflitos contra os brasiguaios, chegaram a ocupar os microfones de uma rádio na cidade de San Alberto, de onde liam e narravam, em guarani (língua de origem indígena, falada em todo o território nacional), passagens da guerra do Paraguai (1964-70). Desde aquela época, nossa imprensa passou a tratar erroneamente o assunto como sendo um caso de xenofobia, construindo uma versão segundo a qual a população rural pobre do Paraguai agiria movida por um sentimento de inveja contra os brasileiros que chegaram ao país na década de 1970, e teriam trabalhado duro a fim de desenvolver as bases produtivas agrárias que colocaram o Paraguai na rota do rico mercado do agronegócio.

III

Demonizando os movimentos sociais, o movimento campesino paraguaio (também chamados de “sem terra”) chegaram a ser comparados com o MST brasileiro. Nada mais falso. Se for verdade que ambos postulam o mesmo argumento – a reforma agrária – e adotam estratégias de ação parecidas, como a ocupação de fazendas e acampamentos à margem de rodovias, o fato é que o MST é um movimento bem mais complexo do que aquilo que geralmente nos é apresentado.

O MST defende um amplo programa de reformas que preconizam a reestruturação total da realidade agrária brasileira, com a implementação de reformas de base, incentivo a agricultura familiar e adoção de um sistema de crédito cooperativo. Também prioriza políticas mais claras de distribuição da produção agrícola (alimentos) e combate o uso de agrotóxicos, transgênicos e outros componentes químicos que contaminam os alimentos, o solo e a água. Sua pauta de reivindicações é bastante diversificada, já que transpassa a mera questão da distribuição de terras, abarcando também questões de natureza econômica, ambientais, políticas, ecológicas e culturais. No plano internacional, o MST se vincula à “Via Campesina” (Opção Camponesa), organização que congrega as lutas sociais e agrárias em todo o globo, e tem apoio de entidades de Direitos Humanos, movimentos sociais, partidos políticos, governos, setores eclesiais, ONGs e personalidades políticas e artísticas. Para a Via Campesina, a luta social deve ser de caráter global, já que não adiantaria resolver conflitos de um único país sem modificar as próprias bases da produção e da apropriação capitalista. Em suma, defendem o princípio da fraternidade entre os trabalhadores do mundo todo e a rejeição às formas de produção que tornam trabalhadores dependentes do capital e transforma alimento em mercadoria.

Diferentemente disto, os campesinos paraguaios, além de exigirem terras para a reforma agrária, não demonstram claramente qual é sua pauta de reivindicações, e ao contrário do MST, adotam discursos onde o nacionalismo exacerbado (a recuperação das terras “nacionais” que se encontram nas mãos dos estrangeiros – no caso, brasileiros) acaba se transformando em xenofobia, postura bem distante do princípio da fraternidade internacional de trabalhadores defendido pelo MST e Via Campesina. Por conta disso, os campesinos paraguaios foram (e continuam sendo) usados no jogo político regional entre chefes locais que também desejam se apropriar de terras reivindicadas para a reforma agrária. É importante lembrar ainda que a crítica dos campesinos à apropriação fundiária estrangeira se constituiu numa das bases sob a qual Fernando Lugo, ex-bispo católico ligado à Teologia da Libertação, se elegeu presidente da República, em 2008. Por fim, ironicamente, muitos brasileiros que fugiram da fúria “nacionalista” dos sem-terra no Paraguai acabaram vindo parar nos acampamentos de sem-terras aqui no Brasil.

IV

Desde o final da Guerra da Tríplice Aliança, o Paraguai tornou-se política e economicamente dependente do Brasil, que sempre estabeleceu com ele uma relação de domínio imperialista. Mesmo na atualidade, em época de integração cultural, social e econômica, o Paraguai é usado pelo Brasil como seu bode expiatório. É pelo Paraguai que explicamos e justificamos, por exemplo, problemas nacionais brasileiros, como o narcotráfico, a pirataria, a entrada de armas no país, o contrabando, o roubo de carros e cargas, a lavagem de dinheiro e a impunidade (reforçado pelo estereótipo do vizinho país como refúgio de criminosos perigosos caçados no Brasil). Agora, nossa imprensa também tributa ao Paraguai a culpa pelos conflitos agrários que tem vitimado agricultores brasileiros.

Independente de concordarmos ou não com a confusa pauta de reivindicações do movimento campesino paraguaio, o fato é que o Paraguai (e os paraguaios) parece apenas querer devolver ao Brasil problemas que, no fundo, sempre nos pertenceram. O Paraguai sempre foi usado para solucionar problemas sociais e econômicos brasileiros. Foi assim quando se instalou a crise energética no Brasil, no início dos anos 70, colocando em colapso o modelo econômico da Ditadura Militar (o “Milagre Brasileiro”). Na ocasião, o Paraguai assumiu metade da dívida da construção superfaturada da Usina de Itaipu, e ainda ajudou a nossa Ditadura a aliviar e desviar problemas sociais (como os conflitos no campo e o desemprego) para seu país, num momento delicado em que a construção de projetos megalômanos e a subida repentina no preço da propriedade agrícola deslocou contingentes de agricultores e trabalhadores rurais.

O Paraguai também foi a válvula de escape que desestagnou a indústria e a economia brasileira, afetada pela crise internacional do período. A construção de Itaipu ajudou a expandir o lucrativo negócio das empreiteiras (basicamente brasileiras), enquanto que a imigração brasiguaia e a apropriação fundiária possibilitou expandir o agronegócio, e com ele, a indústria de bens duráveis, implementos agrícolas, sementes e todo um setor de serviços, atividades estas que favoreceram sobretudo a burguesia brasileira. De quebra, a estruturação de uma complexa rede de espionagem, auxílio militar e político e a troca de favores entre as ditaduras que garantiu privilégios para nossas elites políticas e econômicas (militares, políticos, empreiteiros, banqueiros, latifundiários, etc.), o que ajudou a esmagar a oposição interna e os movimentos sociais, retardando a redemocratização.

V

O conflito de terras na atualidade se iniciou quando o ditador paraguaio Alfredo Stroessner resolveu “dar uma ajudinha” à ditadura brasileira, e passou a incentivar a ida de agricultores expulsos dos campos brasileiros ao Paraguai. O agravamento no Brasil dos conflitos no campo eram efeitos diretos da construção de barragens (como a usina de Itaipu) e do processo de mecanização do campo vivido nos anos 60 e 70. Mas as terras cedidas por Stroessner não eram ”devolutas”, como se dizia, pois alimentava indígenas e trabalhadores rurais paraguaios. Eram sim, preteridas para as atividades do agronegócio, e por isso, foram consideradas “ociosas”.

Os agricultores brasileiros que foram viver no Paraguai recriaram todo um modus vivendi brasileiro, uma sociedade que praticamente excluiu o paraguaio nativo. Os brasileiros criaram quase que um Estado à parte dentro do Paraguai, gerando uma espécie de apartheid econômico e cultural na qual a terra (e seus frutos) acabaram ficando exclusivamente nas mãos dos “brasileños”, enquanto os paraguaios foram reduzidos a meros peões e empregados, ou às vezes, nem isso.

Os indígenas expulsos de suas terras se tornaram moradores de rua em centros urbanos (como Ciudad del Este e Hernandárias), reduzidos à extrema pobreza, ou realocados em “reservas” sem a mínima infra-estrutura (escola, posto de saúde, casas de alvenaria, estradas, etc) e sem os recursos naturais necessários à reprodução de seu modo de vida natural, ou seja, sem florestas de onde poderiam tirar água, madeira, frutas, raízes e legumes, peixes, ervas medicinais e caça, etc. Essas reservas indígenas hoje estão rodeadas pelos grandes sojais dos brasileiros, que, não satisfeitos, acabam por “arrendar” as terras indígenas pagando preços miseráveis (40 ou 50 reais por mês a cada morador) para usar as terras dessa reserva, aumentando assim sua produção, sem que precise pagar mais impostos ou se importar com a destruição da terra pelo uso constante de venenos e outros químicos.

Nas fazendas brasileiras, os cargos de confiança e de chefia (gerente, administrador, agrônomo, capataz) não estão acessíveis aos paraguaios, e muitas vezes, nem mesmo o de peão, já que muitos brasileiros consideram os paraguaios “preguiçosos”, “traiçoeiros” e inaptos para o trabalho. Para o paraguaio, a propriedade agrícola brasiguaia representa sua expropriação e exclusão, e é ela que está na raíz da miséria de todo um povo. O ressentimento dos paraguaios contra os brasileiros tem sua razão de ser.

VI

O conflito de Curuguaty indicou uma importante cisão no seio do governo Lugo.

Apoiando-se na forte base social do campesinato paraguaio, Lugo passou a agir de maneira ambígua desde que chegou à presidência, em 2008. A vitória eleitoral deste ex-bispo adepto da Teologia da Libertação interrompeu um longo ciclo de seis décadas ininterruptas de hegemonia do Partido Colorado paraguaio, incluindo os 35 anos de ditadura stroessnerista. Apoiado pelos movimentos sociais, Lugo também passou a negociar com a extrema-direita patronal herdeira de Stroessner. Para ela, o predomínio brasileiro no mercado de agronegócio é um enclave à “soberania da nação”. Evidentemente, seu interesse não está nas reformas sociais, mas apenas nas terras férteis da bacia do rio Paraná.

Negociando com ambos, Lugo prometeu realizar reformas sociais importantes no país, que deveriam reconstruir o orgulho nacional e rever a posição histórica de submissão do Paraguai frente a outros países, como o Brasil, e no próprio Mercosul. Algumas medidas iniciais, como uma tímida repressão à pirataria (apoiada pelos EUA) e a revisão dos termos do Tratado de Itaipu, que triplicou o preço da energia excedente paga pelo Brasil ao Paraguai, se somaram a outras medidas menores, como a anulação do acordo militar que mantinha tropas norte americanas desde 2005 no país e o apoio moral ao movimento campesino.

Mas as ações “nacionalistas” de Lugo se resumiram a isto, e a “lua de mel” terminaria. Para a classe patronal, a perspectiva de revisão dos títulos de propriedade concedidos por Stroessner aos brasileiros, além dos conflitos entre campesinos e brasiguaios, se apresentou como uma excelente oportunidade para ela se apoderar dos ricos empreendimentos do agronegócio.

Enquanto isso, os movimentos sociais no campo que esperavam pela reforma agrária passaram a intensificar a ocupação de terras consideradas de origem duvidosa. E o problema era justamente este: fazendeiros strosnistas e campesinos queriam a mesma coisa, e num dado momento, Lugo teria que decidir. O massacre de Curuguaty contra campesinos que ocupavam as terras de um político stronista deixou poucas dúvidas sobre quem foi o agraciado.

VII

Por razões óbvias, Lugo tornou-se o grande inimigo dos agricultores brasiguaios (grandes e pequenos), extremamente influentes na Unión de Grêmios de la Producción (UGP), a UDR paraguaia. Mas apesar das bravatas da UGP, apenas alguns pequenos produtores estão efetivamente sofrendo perigo, já que, quando se trata de defender os grandes latifúndios – que inclusive contam com milícias particulares – a polícia paraguaia tem se mostrado bastante efetiva. Os grandes empreendimentos agrícolas permanecem intocados; tanto é que mesmo tendo decorrido mais de uma década de conflitos entre campesinos ebrasiguaios, o maior latifundiário do Paraguai – chamado de “Rei da Soja” – é justamente o brasileiro Tranquilo Fávero. Além disso, cerca de 90% das terras do país se concentram nas mãos de apenas 10 famílias. Enquanto isso, os campesinos que reagiram em Curuguaty estão sendo acusados de terem recebido treinamento e armas das FARC, através do EPP (Ejército Popular Paraguaio). Polícia e exército de todo o país se dirigiram à região do conflito, criando um permanente estado de sítio.

No fundo, como de costume, o sacrifício de sangue camponês foi o argumento que os velhos colorados e viúvas de Stroesner esperavam para recuperar o mando político. Nesse conflito, o poderoso latifúndio seguirá incólume e aparelhado na máquina do Estado. Quem acabará pagando por isso são os trabalhadores, desempregados, movimentos sociais e a própria democracia, já que Lugo acabou de enfrentar um processo político que custou seu mandato. Acusando-o de ter se desempenhado de maneira insatisfatória na resolução dos conflitos sociais, em menos de uma semana a oposição (maioria no Congresso e na Câmara) conseguiu aprovar seu impeachment. Seu principal aliado, o PLRA (Partido Liberal Radical Autêntico, que foi oposição durante o regime de Stroessner) saiu do governo, deixando Lugo completamente isolado. Os velhos colorados também pediram a cabeça de Lugo e articularam o golpe parlamentar. Em resposta, trabalhadores e indígenas vieram de todas as partes do país para a capital, Assunção, espremidos em ônibus e caminhões, a pé ou lombo de burros e cavalos, a fim de prestarem apoio ao presidente e evitar o corte do último fio de democracia ao qual ainda se agarram.

Lugo e os campesinos de Curuguaty tornaram-se vítimas da contradição sob a qual ele tentou fundamentar seu governo, pois vindo de uma forte base social popular, quando tornado governo, foi se distanciando dela, a fim de atender os interesses do latifúndio da burguesia terratenente stroessnerista. A mesma burguesia agrária que ajudou Lugo a apertar o gatilho contra os campesinos de Curuguaty usou este episódio para destituí-lo. O Paraguai do século XXI, assim como a América Latina como um todo, ainda preserva a melhor tradição do pensamento oligárquico, pelo qual a questão social permanece sendo um caso de polícia, e a democracia, uma utopia.

Nota

[*] O autor é historiador e professor na Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campo Mourão.




5 de julho de 2012: dia de solidariedade internacional em Curitiba

4 de Julho de 2012, 21:00, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

ATO CONTRA O GOLPE NO PARAGUAI
Curitibanos fazem no dia 5/07 diversas ações de SOLIDARIEDADE INTERNACIONAL. Pela manhã, a partir das 11h30, na Boca Maldita, tradicional local de manifestações políticas do povo paranaense, o protesto é contra o Golpe de Estado no Paraguai, ocorrido há poucos dias e que tem mobilizado a população paraguaia e a solidariedade internacional contra um ato sumário do parlamento desse país, que destituiu o presidente eleito sem qualquer forma de debate e consulta à população. Pior, destituiu um presidente apoiado, ainda que muito criticamente, por setores populares, para dar o poder a um declarado inimigo dos movimentos populares paraguaios, que sinaliza, evidentemente, para o aprofundamento de medidas repressivas e anti-populares que trarão muito sofrimento ao povo paraguaio.

http://pautaparana.files.wordpress.com/2012/07/313303_2427312125198_1323405632_2844116_1367345580_n.jpg?w=146&h=177&h=177
No final da tarde, ocorre o Seminário Internacional pela Palestina Livre, com palestra do Embaixador da Palestina no Brasil Ibrahim Al Zeben, às 19h, na nova sede da APP-Sindicato (Av. Iguaçu, 880).

Vítima de um terrível regime de ocupação e segregação étnica, proporcionado pelo estado de Israel, a Palestina é hoje possivelmente o símbolo mais gritante da crise humanitária que vive o mundo. As violações cotidianas cometidas contra o povo palestino, apesar de veementemente ilegais e criminosas, são praticamente ignoradas por aqueles que deveriam, em tese, garantir os preceitos mínimos de dignidade humana, como a ONU e a maior parte da comunidade internacional, hoje refém e comprometida com interesses puramente econômicos, que satisfazem somente as grandes potências do planeta. O mesmo pode-se dizer com relação à grande imprensa, nitidamente complacente e omissa diante das aberrações cotidianas sofridas pelo povo palestino.

Além disso, todo dia 5 de cada mês é dia de ação solidária pela libertação dos 5 heróis cubanos, Antonio Guerrero, René González, Fernando González, Ramón Labañino, Gerardo Hernandez, aprisionados há mais de 10 anos nos Estados Unidos, com penas que variam de 15 anos até a prisão perpétua, em processos parciais que são amplamente contestados por defensores de direitos humanos.

Os 5 heróis são cidadãos cubanos que estavam nos Estados Unidos obtendo informações sobre atividades terroristas que eram planejadas e executadasa partir de território norte-americano contra Cuba. Foram presos em 1998, acusados de espionagem. Apenas René conseguiu a liberdade recentemente, mas ainda não foi autorizado a voltar para seus familiares em Cuba.

É por isso que, nesse dia 5 de julho, Curitiba protesta:

  • Contra o Golpe no Paraguai, pela restituição do presidente Lugo e fim da repressão aos movimentos populares paraguaios;

  • Pela libertação palestina, reconhecimento e efetivação do Estado Palestino, libertação dos prisioneiros políticos em cárceres israelenses e garantia do direito de retorno dos refugiados à sua terra natal;

  • Pela libertação e retorno dos 5 heróis a Cuba.




Ato contra o golpe no Paraguai – 05/07 – Curitiba – Boca Maldita – 11h30

2 de Julho de 2012, 21:00, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

O Comitê Paranaense Contra o Golpe no Paraguai está convocando ato público em repúdio ao golpe de Estado, a ser realizado no dia 05 de julho, a partir das 11h30, na Boca Maldita, Rua XV de Novembro, em Curitiba.

As entidades que participam do Comitê consideram a deposição do presidente Fernando Lugo um retrocesso sem precedentes no processo de democratização de um país vítima de décadas de ditadura. O golpe não foi apenas contra Lugo, mas sim contra o movimento popular, acirrando a onda de repressão política no país. O resultado é o rápido retorno de políticas anti-populares, a favor das oligarquias locais e internacionais. Além disso, é evidente a intenção de fazer do Paraguai um foco de presença militar norte-americana, como tem deixado claro alguns deputados paraguaios ao propor a instalação de uma base militar norte-americana, que ameaçaria diretamente a soberania do país e de países vizinhos, como o Brasil, numa região geopoliticamente estratégica.

O golpe no Paraguai é resultado de uma onda golpista de cunho conservador na América Latina, já levada a termos em Honduras (), além de tentativas mal sucedidas na Venezuela, Bolívia e Equador.

O ato em Curitiba tem como objetivo dar apoio ao movimento popular paraguaio e alertar a sociedade brasileira sobre a ameaça anti-democrática e anti-popular que parte de setores conservadores e adeptos das ditaduras que assolaram o continente em décadas passadas.

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Deputado que promoveu o golpe contra Lugo negocia base militar dos EUA no Paraguai

2 de Julho de 2012, 21:00, por Desconhecido - 0sem comentários ainda

Fonte: Comitê Contra o Golpe no Paraguai

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Já foi dito escrito que todo e qualquer golpe militar na América Latina é patrocinado pelo governo dos Estados Unidos da América. No Paraguai, todos os golpes (incluindo a derrubada dos presidentes Raul Cubas e Fernando Lugo) foram organizados dentro da Embaixada dos EUA em Assunção.
Para confirmar esta realidade, acabou de vir à tona o motivo do golpe contra o presidente Fernando Lugo, em que se somaram latifundiários insatisfeitos com a reforma agrária, políticos corruptos e imprensa mercenária: o deputado José López Chávez confirmou que manteve conversações com chefes militares norte-americanos sobre a instalação de uma base militar dos EUA no Chaco paraguaio.
Durante entrevista à rádio 780 AM, ele afirmou que apresentará proposta neste sentido ao Pentágono. É surpreendente (mas não em se tratando de político paraguaio, com raras exceções) que um país peça uma base estrangeira em seu próprio território, entregando a soberania do país por alguns milhares de dólares para políticos e militares corruptos e traidores.
O deputado José López Chávez é presidente da comissão de Defesa da Câmara Baixa. Para mascarar e disfarçar suas verdadeiras intenções entreguistas, afirmou que o objetivo da base é fazer frente à corrida armamentista boliviana. Nesta linha de desculpas, alegou que a região do Chaco precisa de maior população e afirmou que em troca da permissão de instalação da base militar yanque, o Paraguai receberia ajuda humanitária.
As negociações, segundo o deputado, podem avançar rapidamente e no prazo de 15 a 30 dias estarão consumadas, constituindo em mais um golpe contra a soberania do Paraguai e dos países vizinhos.
A proposta de instalar uma base militar no Chaco veio a público na recente reunião da Comissão de Defesa dos Deputados e um grupo de generais dos EUA, que chegou ao país para dialogar sobre eventuais acordos de cooperação, informou o diário paraguaio ABC.
Os generais norte-americanos não perderam tempo e tudo está sendo feito à toque de caixa para que os políticos corruptos do Paraguai assinem a entrega da base militar aos norte-americanos, antes que a população tenha conhecimento deste ato de traição nacional e saia às ruas pedindo a cabeça dos traidores e golpistas.

diputado lopez bases militares Deputado que promoveu o golpe contra Lugo negocia base militar dos EUA no Paraguai Deputado que promoveu o golpe contra Lugo negocia base militar dos EUA no Paraguai


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